outubro 24, 2011

Manuel Antônio de Almeida: talento para recriar a vida

Há uma qualidade indiscutível em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida: passado mais de um século e meio da sua publicação – de 1852 a 1853, na forma de um folhetim semanal anônimo, no suplemento “Pacotilha” do jornal Correio Mercantil –, o romance não se dobra às classificações da crítica. E a qualidade só aumenta quando lembramos que a obra nasce em pleno romantismo, três anos antes de surgir, também no formato de folhetim, O guarani, de Alencar; e cresce ainda mais pelo fato de a narrativa ser uma contraposição – ao que parece, irrefletida, espontânea – à grandiloquência, à retórica e ao sentimentalismo exacerbado dos românticos.

Aliás, no que se refere à espontaneidade, a obra de Manuel Antônio de Almeida apresenta aos escritores a chance de refletirem sobre o ofício da escrita, pois nosso autor sempre falhou – vejam seus poemas, absolutamente medíocres – quando pretendeu ser literato. Alguns de seus trabalhos são, portanto, um convite à reflexão sobre a fronteira que separa a literariedade do texto artificial, o metaforismo do jogo de palavras vazio, a literatura dos malabarismos verbais, a arte do vanguardismo oco, o que efetivamente permanecerá do que é apenas moda aprovada por uma minoria de supostos mandarins da crítica – que também acabam, com o tempo, esquecidos.

Marques Rebelo, autor de um ótimo livro sobre Manuel Antônio de Almeida – esgotado, infelizmente, há mais de quarenta anos –, conta que o escritor produzia os capítulos do Memórias de forma despretensiosa, enquanto os amigos discutiam política ou literatura, cantavam e tocavam violão: “[...] esticado numa marquesa, com preguiça de mudar a horizontal atitude, punha o chapéu alto sobre o ventre e em cima dele ia enchendo a lápis as suas tiras de papel, indiferente às risadas dos companheiros, sem dar grande importância ao seu trabalho, que nem era assinado [...]”. Comportamento, aliás, que corrobora o testemunho de um amigo do escritor, Francisco Otaviano, segundo o qual Manuel Antônio de Almeida “adivinhava com alguns momentos de atenção tudo o que não estudara e escrevia sobre assuntos examinados de relance, como se de longo espaço os tivesse aprofundado”.

Compadrio e perversões

Surge dessa genial naturalidade o livro escrito por um jovem de 21 anos, obra que, romântica ou não, precursora ou não do realismo, influenciada ou não pela literatura picaresca, narra, por meio de uma voz indulgente e jocosa, o cotidiano de pessoas comuns. O narrador do Memórias flagra os personagens em meio à vida que condena todos, de uma forma ou de outra, ao anonimato, a pequenas e múltiplas mesquinharias – a maior parte das vezes, jamais reveladas – e a insignificantes gestos de heroísmo. Ele se coloca, assim, entre dois outros escritores que, opondo-se ao turbilhão de pieguice do romantismo brasileiro, conseguiram rir: Álvares de Azevedo – infelizmente em raras oportunidades, como no poema “É ela! É ela! É ela! É ela!” – e Martins Pena.

A verdade simples, banal, das relações humanas nasce, a cada página do Memórias, despojada de idealismo ou angústia, e somos levados, desde a primeira linha – “Era no tempo do rei” – a um microcosmo cujo retrato não tem compromisso algum com a crônica histórica ou com a descrição fidedigna dos costumes da época de d. João VI, mundo no qual o que está em jogo é a sobrevivência diária de homens e mulheres que não se perguntam, sombrios, por qual motivo foram jogados na face da Terra ou qual o sentido de suas existências, mas cumprem seu fado usando os meios que têm à mão, não importando se desagregam lares, ferem interesses de outrem ou maculam princípios éticos e religiosos.

Assim, não há um só personagem – favorável ou contrário ao protagonista – que não tenha defeitos ou esconda alguma segunda intenção: Leonardo-Pataca (pai do protagonista homônimo) é um mulherengo carente; a mãe de Leonardo (filho de Leonardo-Pataca), uma adúltera; o padrinho, barbeiro que acolhe o menino quando os pais se separam, enganador e ladrão de heranças. A própria comadre, madrinha do menino, sua fiel protetora, quando surge a oportunidade não hesita em mentir para defender os interesses do afilhado e, insinuante, arranja o casamento de Leonardo-Pataca com sua sobrinha. O padre que ocupa o cargo de mestre-de-cerimônias da Sé, exemplo de moralidade, é amante de uma cigana. E até mesmo o major Vidigal, símbolo irrepreensível da ordem e da lei, acaba vencido por seu calcanhar de Aquiles. O único que vive acima desse gregarismo marcado pelo compadrio e por pequenas perversões – mas sempre usufruindo dele – é Leonardo, que está longe de se mostrar “esvaziado de lastro psicológico”, como afirma Antonio Candido, mas, ao contrário, demonstra o perfil típico de quem é criado, longe dos pais, por um adulto que lhe faz todas as vontades e só o elogia, encontrando méritos nos seus piores comportamentos: será uma eterna criança, acostumada a deixar as decisões a cargo dos que direcionam sua vida; um sonhador que nada faz de útil, vivendo às expensas dos outros, incapaz de lutar pelo que deseja, mesmo quando se trata de uma paixão.

Império feminino

Sempre considerei incrível que, apesar de suas dificuldades financeiras, Manuel Antônio de Almeida tenha conseguido escrever um romance tão leve, descomprometido com a estética de seu tempo, empenhado na tarefa de apenas contar uma boa e divertida história. A vivacidade desse livro não é obscurecida nem mesmo pela presença do vocabulário, de forte influência portuguesa; e essa característica se contrapõe a outro aspecto do romantismo, pois demonstra o quanto não era essencial a luta de alguns, principalmente de Alencar, para dar vida a uma linguagem verdadeiramente brasileira.

O romance, inclusive, diverge da própria organização social do país, supostamente patriarcal, ao colocar as mulheres no papel de protagonistas. Manuel Antônio de Almeida cria um império feminino, verdadeiro matriarcado, onde os personagens masculinos sempre se submetem – além de raramente tomarem alguma importante iniciativa. Elas não se assemelham às heroínas de Alencar, não almejam pureza, santidade ou o êxtase de um grande amor, mas sabem unir sedução, doçura maternal, tirocínio e desembaraço para os arranjos que podem beneficiar a si mesmas ou aos seus queridos. Sim, têm defeitos – “Espiar a vida alheia, inquirir dos escravos o que se passava no interior das casas, era naquele tempo cousa tão comum e enraizada nos costumes, que ainda hoje, depois de passados tantos anos, restam grandes vestígios desse belo hábito”, ironiza o narrador –, mas se impõem, unidas, certas do que desejam, sem jamais titubear, para proteger seus escolhidos. Até mesmo a tímida, feia e desengonçada Luizinha confirma o protagonismo das mulheres, pois, logo após a morte do marido, é quem se antecipa no jogo de sedução, a fim de casar com Leonardo.

Mas não estamos diante de uma cartilha que faz a apologia do feminismo. Não. Isso seria diminuir um romance cuja pièce de résistance é a ironia. No entanto, por razões desconhecidas – o autor pretendeu agradar ao público leitor da época, formado principalmente por mulheres, ou manifestou uma influência da infância, quando vivia protegido por sua mãe e pelas irmãs? –, são as mulheres que movem a trama e lutam para girar a roda da fortuna. A importância delas avulta inclusive nas personagens secundárias: a mulata Vidinha, com seu sorriso capaz de derrotar qualquer oponente, e seu bordão, “qual”, repetido sempre com extrema graça, e a vizinha do barbeiro, trocista e zombeteira, persistem na imaginação dos leitores.

Críticas e influência

É estranho que tal romance tenha recebido críticas nem sempre positivas. José Veríssimo fala em “trivialidade do assunto, pobreza do enredo e banalidade dos personagens”, chamando atenção para o “estilo incorreto, descosido e solto, de uma simplicidade que é trivial, de um caráter sem feição, nem relevo”. E, entre os modernistas, Mário de Andrade, apesar de considerar Manuel Antônio de Almeida um “vigoroso estilista”, achava “incontestável que o autor das Memórias se exprimia numa linguagem gramaticalmente desleixada”. Mário, aliás, não consegue rir livremente enquanto lê o romance. Na introdução que escreveu para a edição de 1941, põe-se a denunciar o “achincalhe das classes desprotegidas, mais cômodas de ridicularizar por menos capazes de reação”. Logo a seguir, volta à carga: “Se exclui e se diverte caçoando, sem a menor intenção moral, sem a menor lembrança de valorizar as classes ínfimas. Pelo contrário, aristocraticamente as despreza pelo ridículo, lhes carregando acerbamente na invenção, os lados infelizes ou vis”. E, no penúltimo parágrafo, solta mais impropérios: “Das suas angústias materiais, da infância pobre, o artista não guardou nenhuma piedade pela pobreza, nenhuma compreensão carinhosa do sofrimento baixo e dos humildes. Bandeou-se com armas e bagagens para a aristocracia do espírito e, como um São Pedro não arrependido, nega e esquece. Goza. Caçoa. Ri”. Certamente, o autor de Macunaíma se refestelaria nos dias de hoje, quando certa subliteratura politicamente correta, de contestável valor, é guindada ao lugar de honra no pódio construído pela crítica literária de esquerda.

Serão Eugênio Gomes, no ensaio conciso e perfeito de Aspectos do romance brasileiro, e Antonio Candido, no seu “Dialética da malandragem” – do qual deve ser descontado certo esquematismo sociológico –, aqueles que demonstrarão compreender a índole do romance e seu papel central em nossa literatura, inclusive como antecipador da obra machadiana.

A propósito, a influência de Manuel Antônio de Almeida sobre Machado é tema que pede aprofundados estudos. Mário de Andrade escreve de forma injusta ao afirmar existir “algo do estilo espiritual de Machado de Assis” no autor do Memórias, pois a verdade deveria ser dita na ordem inversa: o autor de Dom Casmurro, além de protegido por Manuel Antônio de Almeida na Tipografia Nacional, onde era considerado um preguiçoso, herdou de seu protetor não só a sutileza da frase, mas a habilidade para construir um narrador irônico, que apresenta os homens sem julgá-los e se dirige ao leitor como se este fosse seu cúmplice. Ascendência inevitável, convenhamos, inclusive porque Machado revisou o Memórias, a fim de preparar o livro para a edição de 1862/1863.

Estamos, portanto, diante de um romance cujas influências são maiores do que se imagina – e ainda pobremente detectadas na literatura nacional, já que os influenciados, repetindo o que o próprio Machado fez, mostram-se lacônicos quando se trata de tecer elogios a Manuel Antônio de Almeida.

Ironia e galhofa

No que se refere à ironia, ela está presente do começo ao fim do livro, sugerindo ou implicando conclusões diferentes daquelas que o narrador parece exprimir: o contexto e as contradições dos termos despertam dúvida ou riso, construindo uma narrativa que alguns críticos, erroneamente, supuseram “moralizante”. Na verdade, o narrador não julga, mas, ao discordar de um costume ou de certo comportamento, apenas expressa, de maneira paternal ou jocosa, a sua censura – escarnecendo, jamais sentenciando. É o que ocorre no capítulo da procissão dos ourives, sobre a qual o narrador aponta modismos e desvirtuamentos, mas também descreve os diferentes aspectos do cortejo religioso, incluindo o encanto e a graciosidade do rancho das baianas – sob seu ponto de vista, manifestação completamente fora de lugar. Ou, em outro trecho, ao depreciar a moda da mantilha, transformada em mau gosto: “Este uso da mantilha era um arremedo do uso espanhol; porém a mantilha espanhola, temos ouvido dizer, é uma cousa poética que reveste as mulheres de um certo mistério, e que lhes realça a beleza; as mantilhas das nossas mulheres, não; era a coisa mais prosaica que se pode imaginar, especialmente quando as que as traziam eram baixas e gordas como a comadre. A mais brilhante festa religiosa [...] tomava um aspecto lúgubre logo que a igreja se enchia daqueles vultos negros, que se uniam uns aos outros, que se inclinavam cochichando a cada momento”. Conclusões mais próximas da galhofa do que de uma pretensa moralização.

Nesse romance, cujas histórias se repetem, todos os dias, em qualquer bairro de classe média baixa, há espaço também para a crítica politicamente incorreta, por exemplo, quando o narrador passa a falar mal daqueles que, hoje, poderiam ser considerados mais uma das minorias ditas indefesas: “A poesia de seus costumes [dos ciganos] e de suas crenças, de que muito se fala, deixaram-na da outra banda do oceano; para cá só trouxeram maus hábitos, esperteza e velhacaria [...]”. E não há traço de ufanismo em Manuel Antônio de Almeida: nenhuma virgem – índia, negra, mulata ou branca – tem “lábios de mel”, e os sabiás, se deles tivesse falado, gorjeariam como qualquer outro pássaro, em qualquer lugar do mundo, às vezes incomodando com seu chilreio repetitivo.

Plasticidade

A descrição da casa de um fidalgo, na qual o pó cobre da rótula à palma benta esquecida a um canto, e do próprio morador, “de cara um pouco ingrata”, que se apresenta ao visitante “de tamancos, sem meias, em mangas de camisa, com um capote de lã xadrez sobre os ombros, caixa de rapé e lenço encarnado na mão”, ou os pormenores utilizados para nos apresentar a sala de aula em que Leonardo estudará – “mobiliada por quatro ou cinco longos bancos de pinho sujos já pelo uso, uma mesa pequena que pertencia ao mestre, e outra maior onde escreviam os discípulos, toda cheia de pequenos buracos para os tinteiros; nas paredes e no teto haviam penduradas uma porção enorme de gaiolas de todos os tamanhos e feitios, dentro das quais pulavam e cantavam passarinhos de diversas qualidades” – são alguns dos inúmeros trechos que extrapolam o simples realismo ou a crônica de costumes, passagens talvez inspiradas nos relatos de Antônio César Ramos – funcionário do Correio Mercantil, chegara à patente de sargento nas milícias de d. João VI – ao escritor, mas que, certamente, foram transfigurados por acréscimos e distorções.

Se a força imaginativa desse jovem autor cria cenas de inusitada plasticidade, seus personagens parecem respirar, não devido ao exagero de características, mas à escolha perfeita do que merece ser ressaltado: “Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonanchona ingênua ou tola até certo ponto, e finória até outro; vivia do ofício de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto; todos a conheciam por muito beata e pela mais desabrida papa-missas da cidade. Era a folhinha mais exata de todas as festas religiosas que se faziam”. Descrições nas quais a psicologia nunca é menosprezada, como no trecho a seguir, quando o narrador justifica a atitude tolerante do barbeiro em relação às estripulias de Leonardo: “Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Assim à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira”.

Falsificação e verdade

Perguntei-me, enquanto relia o Memórias, quais seriam os defeitos da obra. E encontrei-os, acreditem: no final do Capítulo IX do Tomo II, vemos as dificuldades de um narrador onisciente que, apesar de reter em suas mãos todas as informações – o que não é, de fato, um problema –, parece ter medo de se alongar, por falta de tempo ou espaço, sentindo-se premido a unir os fios soltos do enredo mediante considerações genéricas, inconvincentes. Situação repetida no Capítulo XIII do mesmo tomo, no qual o narrador resume os fatos, dando ao texto um tom superficial, esquemático. Em outros raros momentos, abusa-se de uma solução redentora: no Capítulo X do Tomo II, transcorrem semanas antes que descubram onde Leonardo está, pois abandonou a casa paterna depois de brigar com sua jovem madrasta; mas quando o protagonista se vê acossado por rivais, surge no instante propício, inesperadamente, sua principal defensora, a comadre.

Tais senões, entretanto, são tragados pela absoluta maioria de ótimas cenas. Vejam o Capítulo I do Tomo II, no qual acompanhamos as minúcias de um parto, da preocupação e ansiedade do pai às orações, práticas e mezinhas da boa parteira – e não se trata, aqui, apenas de perfeição da escrita, mas do raro poder de revelar humanidade. Ou, ainda, a descrição dos estados de ânimo do protagonista ao se apaixonar por Luizinha: seu desconforto por desejar reciprocidade imediata, mas só receber, a princípio, falta de jeito e timidez. E sua insegura declaração de amor (Capítulo XXIII, Tomo I), enquanto Luizinha apenas gesticula ou enrubesce, “página que antecipa Machado de Assis em suas melhores realizações de caráter psicológico” – segundo a correta afirmação de Eugênio Gomes –, exemplo vivíssimo de um autor que domina a técnica do diálogo, transmitindo, por meio das reticências, dos silêncios e da brevidade das falas, a carga dramática adequada.

Mesclemos todas essas qualidades à correta adjetivação – às vezes exagerada de maneira proposital, a fim de ridicularizar ou escarnecer –, à capacidade de síntese – uma “equação meirinhal pregada na esquina” (Capítulo I, Tomo I) concentra, em poucas e felizes palavras, tudo que foi descrito antes, com extrema ironia – e ao formidável poder narrativo – quem não consegue enxergar um meirinho depois de ler que “nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense. Seus olhares calculados e sagazes significavam chicana”? – e teremos um romance genial, em que a natureza humana está presente sem falsificações; ou exatamente graças a elas, pois foram imaginadas com tal nexo, com tal harmonia, que recriam na ficção a excelência de uma verdade imorredoura.

outubro 15, 2011

outubro 11, 2011

Centelhas de verdade: Chamfort, Kraus, Lichtenberg, La Rochefoucauld

Entre o final de 2009 e meados de 2010, as livrarias brasileiras receberam dois importantes lançamentos, escritos por autores jamais traduzidos entre nós, e que, infelizmente, continuarão a não receber maiores cuidados. Creio, por inúmeras razões, que devemos nos contentar com esses livros, independente do fato de tais pensadores – Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort (Máximas e pensamentos & Caracteres e anedotas) e Karl Kraus (Aforismos) – terem deixado várias obras. É uma pena. Para os que leem outras línguas, isso não traz, claro, nenhuma dificuldade, mas para a massa que só domina o português, esse vazio editorial é um obstáculo à cultura, à inteligência.

As pessoas, evidentemente, podem acreditar que é possível ter uma ótima vida sem ler Chamfort, Kraus e quaisquer outros; e, de fato, a imensa maioria chega ao túmulo, em pleno século 21, mantendo-se afastada dos livros ou satisfazendo-se com uma insalubre mistura de romancinhos kardecistas e obras de autoajuda. Chamfort, aliás, escreveu um ótimo aforismo sobre o assunto: “O que faz o sucesso de grande quantidade de obras é a relação que se encontra entre a mediocridade das ideias do autor e a mediocridade das ideias do público”. Sabemos, contudo, o quanto esse comportamento é fruto da ignorância, o quanto essas escolhas são ditadas não pela vontade consciente dos leitores, mas por uma mescla de incultura, propaganda e obscurantismo (o que, aliás, sempre existirá). E temos consciência de que ler Chamfort ou Kraus – e também, para ficarmos no âmbito dos aforistas, La Rochefoucauld ou Lichtenberg – pode não tornar a vida melhor, mas, certamente, tem o poder de expandi-la, aprimorando nossa maneira de ver o mundo e de encarar nossas limitadas possibilidades de escolha, além de diminuir a cegueira e os tantos deslumbramentos de que somos acometidos, que nos fazem perder tempo com um sem número de coisas vãs.

Agudeza e concisão

Chamfort e Kraus ficaram famosos por seus aforismos. Percebam que não falamos aqui de provérbios ou ditos espirituosos, bons para enfeitar diálogos fúteis ou conceder ao falante um verniz de falsa erudição. O aforismo é uma forma de refletir sobre a realidade, de problematizá-la. Sua precisão serve bem à ironia e ao sarcasmo, pois transforma o pensamento numa seta que fere sem alarde, cujo zunido quase imperceptível sintetiza um erro, um absurdo, às vezes certa mentira renitente.

De origem multíplice – os estudiosos o encontram na Escola Hipocrática, nos livros sagrados da Índia, nos ensinamentos de Confúcio ou Lao-Tsé, e também na Bíblia, incluindo uma das leituras prediletas de Machado de Assis, o Eclesiastes –, o aforismo pretende ser uma epítome de frações do vivido ou do observado. Do mesmo modo, ele se assemelha – se for possível tal imagem – a um pequeno abismo, no qual o aprofundamento do tema soma-se à brevidade da expressão. Destituído de enredo, paira acima do tempo e do espaço, pois qual civilização ou que homem não encontrará verdade ao ler: “O que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol!”?

Pleno de agudeza e concisão, no centro do aforismo pulsa uma força que pretende depurar a existência sem necessitar de argumentações. E quanto mais elaborada a frase por meio da qual o pensamento se expressa, mais o aforismo denuncia a banalização da linguagem. Manifestos contra o senso comum, julgamentos insólitos, exemplos de engenho linguístico, os aforismos estimulam nossa inteligência, obrigam-nos a refletir.

Vítima dos jacobinos

Segundo o que diz Cyril Connolly, em seu angustiado The unquiet grave, Chamfort era “um filósofo sem esperança e sem compaixão”, além de “bufão cínico e mimado pela corte” que ele trairia ao apoiar a Revolução Francesa. Pensionista da monarquia, secretário de Louis Joseph de Bourbon, príncipe de Condé, e depois secretário do próprio rei, foi dos primeiros a invadir a Bastilha, tornando-se um agitador das massas. O que ele desconhecia, contudo, é que a nova classe no governo não possuía a fleuma dos aristocratas, não era capaz de rir de si mesma ou de aceitar críticas, principalmente as irônicas – característica, aliás, não só dos jacobinos, mas da esquerda em geral.

A partir do momento em que começa a desaprovar os excessos da revolução, Chamfort sintetiza a ética jacobina: “Seja meu amigo – ou eu te matarei”. De fato, acaba preso por seus companheiros no ano de 1793. Julgado, é absolvido, mas logo depois recebe nova condenação. Em desespero, reage com uma tentativa de suicídio: o tiro na têmpora arranca-lhe o nariz e um pedaço do maxilar, mas não o mata. Usa, então, o abridor de cartas que encontra sobre a escrivaninha, primeiro ferindo o pescoço, depois o peito – e ainda assim sobrevive. Morre meses mais tarde, talvez de uma septicemia. Infelizmente, não seria o último a sofrer nas mãos dos que prometem o Paraíso na terra. E sabia do que seus amigos eram capazes, pois certa vez escreveu: “O homem no estado atual me parece mais corrompido pela razão do que pelas paixões”.

Suas máximas podem ser repletas de humor – “Um tolo que tem um momento de espírito espanta e escandaliza, tal como cavalos de carroça a galope” – ou de acrimônia – “Os burgueses, por uma vaidade ridícula, fazem de suas filhas o adubo para as terras das gentes de qualidade” –, mas guardam sabedoria e triste atualidade: “Um autor, homem de gosto, é, no meio desse público blasé, o mesmo que uma meretriz no meio de um círculo de velhos libertinos”.    

Contra a imprensa

Encontramos mal-estar semelhante ao de Chamfort nos aforismos de Karl Kraus. Morando em Viena, entre a derrocada do Império Austro-Húngaro e o início da II Guerra Mundial, ele foi testemunha do que Hermann Broch classificou de “alegre Apocalipse”. Em 1899 funda A Tocha (ou O Archote), publicação que editará sozinho durante trinta anos e na qual denuncia os absurdos de sua época, principalmente a forma como jornalistas e intelectuais justificavam o antissemitismo e a violência. Chama-os de “traidores da humanidade”.

Contestador da psicanálise – “É a doença cuja cura ela pretende ser “ –, Kraus é definido por Freud, erroneamente, como “um louco idiota com grande talento histriônico”. Se fosse apenas isso, alguns jornais não fariam, logo após a I Grande Guerra, uma campanha pedindo sua morte.

Revolucionário para alguns, reacionário para outros, Kraus apontou, sem medo, a covardia, o silêncio e a cumplicidade de intelectuais e jornalistas, mestres da incoerência e do descompromisso com a verdade. A imprensa, em sua opinião, era, essencialmente, uma corruptora da linguagem, capaz de utilizar eufemismos para qualificar a guerra e, logo a seguir, o avanço do nacional-socialismo. Kraus usa a ironia e a sátira, portanto, como instrumentos para se contrapor à linguagem deturpada pela ideologia e destituída de seu principal poder: o de criticar. Foi um lutador solitário, a voz da consciência de um tempo em que os homens perderam a razão: “Tendo bom ouvido, ouço barulhos que os outros não ouvem e que me perturbam a harmonia das esferas que os outros tampouco ouvem”.

Os elogios que Otto Maria Carpeaux escreveu sobre ele – “Assim como a teologia moral é a técnica de revelar os pecados, assim a arte satírica de Kraus é uma técnica de filologia moral” – encontram justificativa em cada um dos seus aforismos: mostrou-se implacável com jornalistas – “O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, não se poderá mais constatar a causa com segurança” –, com certos escritores – “A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas” –, com as mulheres – “Vista de perto, muitas vezes uma mulher nos decepciona. Sentimo-nos atraídos porque ela aparenta ter espírito, e ela o tem” – e com os mitos que subsistem até hoje – “O progresso faz porta-moedas de pele humana”. Carpeaux está certo: “Karl Kraus é o maior escritor satírico e o maior moralista da literatura alemã”.

Um gigante

Kraus era leitor assíduo de outro brilhante aforista, sobre quem escreveu: “Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas não volta à superfície. Ele fala sob a terra. Só o escuta quem também cava fundo”.

Lido e citado por Kant, Thomas Mann, Goethe, Wittgenstein, Musil, Canetti e muitos outros, Georg Christoph Lichtenberg foi, além de satirista, matemático e físico experimental, professor da Universidade de Göttingen, apaixonado pela Inglaterra – chegou a ser preceptor dos filhos do rei Jorge III –, eleito para a Royal Society em 1793. Formou, com Christoph Martin Wieland e Gotthold Ephraim Lessing, o trio responsável pela divulgação de Shakespeare na Alemanha. Leitor devotado dos ingleses, recomendava aos alemães que não perdessem tempo com o Werther, de Goethe, mas se dedicassem a Daniel Defoe, Jonathan Swift e Laurence Sterne, o que, de certa forma, confirma sua revelação autoirônica: “Na realidade, fui à Inglaterra para aprender a escrever em alemão”.

Hipocondríaco e supersticioso – obcecado pela ideia da morte, tinha o hábito de contar os enterros que passavam sob sua janela –, um acidente sofrido na infância marcou-o com uma corcunda e dificultou seu crescimento, deixando-o pouco maior que um anão. Mas, salientemos: isso não impediu Lichtenberg de ter êxito com as mulheres.

Editor e escritor de almanaques, transformou esses anuários de temas populares, para os quais escrevia artigos de divulgação científica, num grande sucesso. Quanto aos seus inúmeros cadernos de notas (escritos de 1765 a 1799), a publicação se estendeu por vários anos, e só em 1971 os leitores tiveram acesso à obra completa.

Em permanente polêmica com alguns de seus contemporâneos, Lichtenberg alcançou influência espantosa. Kierkegaard chamava-o de “Voz no deserto” e Schopenhauer escreveu paráfrases de seus textos em O mundo como vontade e representação. Seus aforismos revelam argúcia surpreendente – “Na verdade, há muitos homens que leem apenas para não pensar” –, profunda visão ética – “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”–, capacidade para rir de si mesmo – “Ao longo de minha vida outorgaram-me tantas honras imerecidas, que eu bem poderia me permitir alguma crítica imerecida” – e certo lirismo – “Uma moeda de um centavo é sempre preferível a uma lágrima”.

Poucos, pouquíssimos tiveram sua obra colocada em tão alta conta por Otto Maria Carpeaux, que assim se referiu aos Aforismos: “Exilado numa ilha deserta, eu levaria este pequeno breviário de sadio bom senso, ao lado de Marco Aurélio e dos Pensées de Pascal, sem ofender aos meus santos. Lichtenberg, também, é um companheiro eterno”.

Delicada malevolência

Nesta rápida ciranda em torno do gênero aforístico, encerremos falando sobre um dos autores prediletos de Lichtenberg: François VI, duque de La Rochefoucauld, príncipe de Marcillac, membro de uma das famílias mais antigas da França. La Rochefoucauld lutou contra os cardeais Richelieu e Mazarin, participando ativamente – e sem sucesso – do confuso período da Fronda. Suas decepções foram tantas, que aos 48 anos se retirou da vida pública e passou a se dedicar exclusivamente à escrita. Publica Máximas e reflexões, conjunto de epigramas pessimistas e contundentes, em 1655. Edição a edição, revisará os textos, atenuando seu caráter ferino e dando-lhes mais brilho, maior concisão.

Desengano e ressentimento fizeram nascer esse livro. Para La Rochefoucauld, o mundo é movido por interesse e egoísmo – e são esses dois comportamentos que provocam, inclusive, as atitudes aparentemente virtuosas. Longe de criar um sistema filosófico, ele apenas insiste na tese de que o mal impulsiona todos os gestos humanos. Mas ainda que possamos discordar do seu pessimismo, suas frases nos encantam, pois ele escreve com leveza, delicada malevolência, fazendo jogos de paradoxos nos quais brilha uma inteligência extraordinária. Superficiais ou não, verdadeiros ou não, seus aforismos são lições de estilo, de habilidosa capacidade para condensar a linguagem.           

Na opinião de La Rochefoucauld, “como mortais, tememos todas as coisas, como imortais as desejamos todas”. Inflexível na sua visão dos homens, ele afirma que “esquecemos facilmente nossos erros quando só nós os conhecemos” e que “se não tivéssemos defeitos não nos agradaria tanto notá-los nos outros”. Mas nosso aforista também pode cunhar frases de finíssimo humor: “Há casamentos bons, mas não os há deliciosos”.    

Fragmento moral

Para alguns, subjacente à arte do aforismo encontra-se apenas uma simplificação que falseia a realidade – juízo ao qual me oponho. Todos os aforistas analisados aqui estão muito além dessa frágil leitura. E o mesmo pode ser dito daqueles, tão essenciais quanto estes, de que não pudemos falar: o conceptista Baltasar Gracián y Morales; o infelizmente desconhecido Nicolás Gómez Dávila e seus geniais, intrépidos escólios; o veemente Ambrose Bierce; e tantos outros.

Malabarismos linguísticos, investigações acerca das leis que regem nossa conduta, sentenças que se contrapõem às loucuras e idiotices de uma época: os aforismos nascem na tênue fronteira entre a literatura e a filosofia. Fórmulas esmeradas, contraposições à verbosidade que concentram escárnio, denúncia, humor e lucidez, eles revelam, numa centelha, certo fragmento moral – quase sempre, apontando o que preferimos ocultar ou desconhecer.

outubro 06, 2011

O antirrevolucionário

Durante os primeiros meses da república, entre novembro de 1889 e junho de 1890, um brasileiro residente na Europa escreve, utilizando o pseudônimo de Frederico de S., seis longos ensaios sobre o golpe militar e seus desdobramentos. Publicados na Revista de Portugal, que pertencia a seu amigo íntimo, o escritor Eça de Queirós, os textos, reunidos sob o título de Fastos da ditadura militar no Brasil, são paradigmas do melhor publicismo, análise cética, arguta e irônica da ditadura que transformou o país politicamente estável numa farsa cujos principais personagens — exatamente como nos dias de hoje — são a demagogia, o empreguismo e a corrupção.

— Este é um trecho do ensaio que publiquei na edição deste mês do Rascunho, no qual falo de Eduardo Prado, o “reacionário magnífico”.