dezembro 31, 2012

O lugar seguro

A meus amigos, colegas, alunos e leitores, este belo poema de Czeslaw Milosz – para fechar 2012 e abrir 2013 com as mesmas chaves: a da humildade do escritor diante da vida e a do carinho pelas coisas aparentemente triviais:

A condição poética

Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada,
nada perde a clareza, fica mais denso.

Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.

As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.

Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.

A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-lo.

Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?

Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que, se olhasse, cairia. Virei então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.

Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.
 
(Tradução de Ana Cristina César e Grazyna Drabik)

dezembro 29, 2012

“Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”

A síntese da ética jacobina – e, portanto, da ética esquerdista – foi elaborada por Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort e permanece insuperável até hoje: “Seja meu amigo – ou eu te matarei”. Pude experimentar o acerto dessas palavras nos últimos três meses, período em que lutei, apesar da má vontade de uma minoria, pela prevalência do verdadeiro.

Graças à lucidez da Folha de S. Paulo, os fatos começaram a ser esclarecidos antes mesmo que eu pudesse me manifestar, em dois textos: “Crítico tido como severo é jurado ‘C’ do Jabuti” e “Rodrigo Gurgel, o jurado ‘C’, pagou o pato das gambiarras do regulamento”.

Quando, finalmente, encontrei-me livre para falar, expus meus critérios, também na Folha de S. Paulo, no texto “Depoimento: Jurado ‘C’ explica nota zero dada no Jabuti”.

Logo depois, numa breve entrevista – “Jurado C do Jabuti: ‘Não tentei manipular o resultado’” –, detalhei algumas questões.

Mas nas duas entrevistas seguintes – “‘Meu voto não foi maquiavélico nem quixotesco’, diz Rodrigo Gurgel” e, principalmente, “‘O sistema literário brasileiro está doente’, afirma jurado ‘C’ do Jabuti”, diálogo mantido com o editor do Caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo, jornalista Paulo Werneck – é que pude ir além da questão das notas, à qual se apegaram alguns, para falar dos problemas e deficiências subjacentes em nosso sistema literário, parcialmente revelados pela polêmica.

 
O melhor fecho à polêmica foi publicado em 23 de dezembro, na Folha de S. Paulo: “A luta de James Joyce para reter o presente”, ensaio no qual pude não apenas colocar em prática minha hermenêutica – como faço desde 2006 no Rascunho e, em algumas oportunidades, na Revista Sibila –, mas defender, novamente e de maneira incansável, o que Georg Christoph Lichtenberg afirma: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.

dezembro 07, 2012

Através da densa névoa...

“Assim, através da densa névoa das dúvidas obscuras do meu espírito, vez ou outra surgem intuições divinas, iluminando-me a neblina com um raio celestial. Agradeço a Deus por isso; pois todos têm dúvidas; muitos negam; mas entre dúvidas e negações, poucos têm ainda intuições. Dúvidas sobre todas as coisas terrenas e intuições de algumas coisas celestiais; essa combinação não faz de ninguém nem crente nem infiel, mas um homem que a ambas estima com os mesmos olhos.” – Moby Dick, Herman Melville

dezembro 06, 2012

Para os meus verdadeiros amigos

“É difícil contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem propositalmente o que julgam impossível obter.”  Doutor Samuel Johnson

novembro 28, 2012

A ilha no Lago de Innisfree

Sim, partirei já, partirei para Innisfree,
E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.

E alguma paz desfrutarei, porque como lenta gota é a paz,
Desprendendo-se dos véus da manhã até ao lugar onde o grilo canta;
Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes o entardecer.

Ergo-me e vou, parto com a noite, parto com o dia,
Ouço as águas do lago, o seu murmúrio junto à costa;
Seja pelos caminhos, seja pelas sombrias ruas,
Ouço esse murmúrio no mais fundo do coração.

W. B. Yeats
(tradução de José Agostinho Baptista)

novembro 25, 2012

O “Cogito” Agostiniano

Pois nós somos e sabemos o que somos, e amamos o nosso ser e o nosso conhecimento. E estamos seguros da verdade destas três coisas. Pois não é como os objetos de nossos sentidos que podem nos enganar por uma noção falsa. Estou absolutamente certo por mim mesmo que eu sou, que eu conheço e que eu amo meu ser. Não temo tampouco aqui os argumentos dos Acadêmicos, mesmo que me digam: Mas vós vos enganais! Pois se me engano é porque existo, pois ninguém pode se enganar se não existe. E uma vez que eu exista, eu que me engano, de que maneira eu posso me enganar crendo que eu existo, visto que é certo que eu existo se me engano? Assim dado que seria sempre eu que estaria enganado, quando fosse verdade que eu me enganasse, é indubitável que eu não posso me enganar quando creio que existo.
 
A Cidade de Deus XI, 26

novembro 19, 2012

“O ensaísta que queria ser mágico”

Há alguns dias, fui entrevistado, para o portal de notícias Oa Jundiaí, por Ricardo Nassif, amigo do meu tempo de ginásio no Colégio José Romeiro Pereira (carinhosamente chamado de Geva por todos que ali estudaram e pelos moradores de minha cidade natal, Jundiaí). Ricardo hoje é gerente de projetos em instrumentação astronômica no Laboratório Nacional de Astrofísica, mas, graças à Internet, seguimos conversando, exatamente como nos tempos de colégio. A entrevista – em que falamos sobre meu livro, Muita retórica – Pouca literaturasaiu hoje, com edição de outro grande amigo, Flavio Gut, que também estudou conosco no Geva e, anos mais tarde, foi meu diretor de Redação durante o período em que o Jornal de Jundiaí (JJ) fazia, com inusitada coragem, jornalismo independente. O resultado pode ser lido aqui: “Rodrigo Gurgel, o ensaísta que queria ser mágico”.

novembro 18, 2012

O que importa é ser “cool”

Pessoas que chegam à maturidade e lutam para não ter certezas destilam melancolia. Encontro-as sempre – e quanto mais intelectualizado o grupinho, mais estão presentes, sorrisos largos, abertos em exagero, semelhantes a um decalque pronto a descolar, incapaz de suster os olhinhos reluzentes que imploram um tiquinho de atenção. São quarentonas, as rugas em volta dos olhos não enganam, mas vestem-se como crianças, eternas escolares. Há o tipo básico feminino: cabelo mal penteado, sapatinho boneca, saia acima do joelho – e o discurso relativista, a cansativa repetição das fórmulas que todos encontram, com uma passada de olhos, em Sartre, Foucault e Deleuze. Mas sob as palavras, só angústia. A cada noite, o vazio que defendem em seu blá-blá-blá decorado esmaga-as sem dó nem piedade. No dia seguinte estão lá, um pouco trêmulas, sempre incapazes de pensar contra a corrente. A verdade pode fazê-las tropeçar na próxima esquina, mas não importa. O que importa é ser cool.

novembro 08, 2012

Jacques Barzun e as convenções do Intelecto

Graças ao meu caro amigo Bruno Garschagen, que disponibilizou hoje em seu blog a resenha de João Pereira Coutinho sobre Jacques Barzun, falecido no último 25 de outubro, fui rever os livros que tenho desse grande ensaísta, magnífico historiador das ideias e da cultura. Lá está, sublinhado em minha edição de A Casa do Intelecto:

O Intelecto é o grande unificador da mente consigo mesma e com a mente dos demais. Na arte, é o Intelecto que, implícita ou explicitamente, alça a obra da delicadeza ou do virtuosismo para o que os pósteros chamam de profundidade ou grandeza. Na sociedade, são as convenções do Intelecto que permitem a discussão – e não a luta; a reciprocidade – e não o capricho infantil; a tradição – e não o perpétuo começar de novo.
 
Verdades para as quais parcela da nova geração de escritores e intelectuais – principalmente aqueles que, sabiamente, se distanciam do marxismo e do niilismo – começa, ainda bem, a acordar.

novembro 07, 2012

Simões Lopes Neto: o narrador ideal de Walter Benjamin


A “Mboitatá” é a narrativa mais admirável. Simões Lopes Neto conseguiu criar um exemplo perfeito de sintetismo, construindo-o por meio de elementos que, de forma reiterada, transportam-nos ao universo mítico. Numa cosmologia primitiva, a longa noite está instaurada — e o que veio antes dela permanecerá incógnito. O homem, anulado diante do cosmo que se desorganizou, encontra-se no anti-gênesis. Estamos in illo tempore: um passado indefinido, em meio ao caos. A desordem absoluta, que enche de pavor homens e animais, favorece o surgimento do prodígio maléfico: a serpente que devora olhos.

– Este é um trecho do ensaio que publiquei na edição deste mês do jornal Rascunho, em que analiso a obra Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto.

novembro 03, 2012

À disposição do fogo

“Sei o quanto é árduo. Para alcançar um estado de ânimo profundo e sincero há necessidade de algo. São tantas as pequenas cruzes que nos impedem de alcançar a nudez e a verdadeira essência da nossa visão. Parece bobagem, não? Penso com frequência que se deveria poder rezar antes de trabalhar, e depois confiar tudo à graça de Deus. Que coisa árdua, realmente, que difícil trabalho conseguir chegar ao corpo a corpo com a própria imaginação, lançar tudo ao mar! Sinto-me sempre como se estivesse nu e à disposição do fogo que o Onipotente fará fluir através de mim: sensação um pouco assustadora. Deve-se possuir tal religiosidade para ser artista! Penso muitas vezes no meu caro São Lourenço, preso à sua grelha, quando disse: ‘Virem-me para o outro lado, pois este já está cozido’.”

– De uma carta de D. H. Lawrence a Ernest Collings

novembro 02, 2012

Poema para Finados

Era un niño que soñaba
un caballo de cartón.
Abrió lós ojos el niño
y el caballito no vio.
Con un caballito blanco
el niño volvió a soñar;
y por la crin lo cogía...
Ahora no te escaparás!
Apenas lo hubo cogido,
el niño se despertó.
Tenía el puño cerrado.
El caballito voló!
Quedóse el niño muy serio
pensando que nos es verdad
un caballito soñado.
Y ya no volvió a soñar.
Pero el niño se hizo mozo
y el mozo tuvo un amor,
y a su amada le decía:
Tú eres de verdad o no?
Cuando el mozo se hizo viejo
pensaba: todo es soñar,
el caballito soñado
y el caballo de verdad.
Y cuando vino la muerte,
el viejo a su corazón
preguntaba: Tú eres sueño?
Quién sabe si despertó!

Antonio Machado (Campos de Castilla, CXXXVII, Parábolas, I)

outubro 30, 2012

A Internet e o “mundo da veracidade”

A longa carta aberta (publicada na The New Yorker e traduzida no Caderno Link, de O Estado de S. Paulo) que o escritor Philip Roth escreveu à Wikipédia é, sem dúvida, notável mergulho no processo de criação do romance A marca humana. Contudo, quanto mais avançamos no texto, mais lateja em nossa mente o absurdo que provocou a carta: a proibição de que o próprio Roth corrigisse – nessa famosa, errônea e imprecisa enciclopédia virtual – o verbete que fala do seu romance.
 
Quando todos, graças à Internet, podem escrever e publicar suas supostas verdades, os “balbucios das tagarelices literárias”, para usar a expressão de Roth, podem ser mais verdadeiros que o depoimento do próprio escritor? Não se trata, é claro, de sermos ingênuos e simplesmente acreditarmos em Roth. Trata-se de perceber o traço kafkiano desse novo tempo, em que qualquer um pode ser a “secondary source” exigida pela Wikipédia.

outubro 26, 2012

Um romance que deveríamos reler a cada ano

Sous le soleil de Satan, de Georges Bernanos:


outubro 25, 2012

Vamos ao que importa!

No tempo de minha bisavó, até receitas de bolo eram escritas com perfeição. Vovó Nenê, como a chamávamos carinhosamente, nossa primeira professora de inglês e francês, línguas nas quais era fluente, diria, ao terminar a leitura: “– Que português escorreito, meu filho!”.

Bolo Rei
 
Amasse com água que baste 75 gramas de farinha de trigo (obra de uma xícara de chá rasa) e um tablete de fermento, deixando levedar. Ponha numa vasilha grande 250 gramas de farinha de trigo em forma de círculo, no centro do qual coloque 100 gramas de açúcar (obra de uma xícara de chá rasa) e incorpore a este 25 gramas de manteiga (obra de uma colher de sopa), um ovo inteiro, uma gema, uma pitada de sal, raspa de noz-moscada e a massa do fermento. Vá amassando tudo com as pontas dos dedos, incorporando, por fim, a farinha que ficou ao redor. Amasse bem. Tome um copo, encha-o pela quarta parte com cerveja branca e complete, até atingir a metade do copo, com uma mistura em partes iguais de rum, vinho do Porto ou quinado e conhaque. Adicione à massa esse meio copo de líquido, aos poucos. Sove durante quinze minutos e junte 250 gramas de frutas cristalizadas, cortadinhas. Amasse um pouco mais e deixe levedar, cobrindo com um pano, por três ou quatro horas. Unte uma forma de pizza com 35 centímetros de diâmetro e no seu centro coloque uma tigela pirex com 12 centímetros, virada de boca para baixo. Polvilhe bem a mesa com farinha e aí disponha a massa, dando-lhe o formato de uma tira cujas pontas serão unidas formando o anel que você deverá colocar na forma, contornando o pirex. Enfeite esse anel com algumas tiras de laranja e cidra cristalizadas, como se fossem os raios de uma roda. Enfeite também com dois figos partidos ao meio. Cubra com um pano e deixe crescer bem. Pinte com um ovo inteiro batido com uma colher (de chá) de açúcar e, nos intervalos, disponha uns traços de um centímetro de largura com açúcar, acompanhando o desenho das tiras de laranja. Asse em forno brando e, quando espetar e o palito sair seco, estará pronto.

outubro 18, 2012

Marisa Lajolo resenha meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura”

Marisa Lajolo faz, neste texto publicado inicialmente no Facebook, um interessante diálogo com meu livro. Uma leitura que aponta discordâncias, mas de maneira ética, equilibrada, sábia. Leitura lobatiana, com aquela argúcia que Monteiro Lobato nunca deixou de lado – e que Marisa Lajolo, decana dos estudos lobatianos, não poderia deixar de ter.

BOA RETÓRICA E BOA LITERATURA

Marisa Lajolo

Nas cores sóbrias da capa de Muita retórica – Pouca literatura (Campinas, SP: Vide Editorial) uma figura de rosto borrado parece escrever em folhas que levantam voo e transformam-se em pássaros. A capa é sedutora. O título intrigante provoca o leitor. Mas o suspense se desfaz no subtítulo: De Alencar a Graça Aranha.

E é efetivamente pela prosa brasileira que Rodrigo Gurgel – o autor do livro – passeia, compartilhando com seus leitores juízos sobre escritores e obras do século XIX e comecinho do XX. Leitor rigoroso, de dedo em riste e olhar severo, o crítico aponta e discute cochilos e acertos – de diferentes ordens de grandeza – de nossos escribas.

É claro que o leitor não precisa concordar com Gurgel. Eu, por exemplo, acho que Lucíola e O cortiço são grandes obras. Gurgel não acha, mas ele expõe seus argumentos com tanto talento (a boa retórica!) que fico obrigada a ir buscar os meus para discordar dele. O que é uma bela forma de a crítica cumprir sua função de aprimorar a leitura.

Aprimorar a leitura literária não é concordar com nosso interlocutor. Seja ele quem for. É respeitar leituras alheias, pois literatura é um entrelaçamento de obras e de leituras que as obras receberam. O leitor que decida em qual malha desta rede quer meter sua colher torta.

Este livro tem bastidores muito interessantes: ele nasce de ensaios que seu autor publicou inicialmente no excelente jornal Rascunho, de Curitiba. E tem suas primeiras discussões em formato bastante original. Gurgel lança o livro fazendo uma palestra no YouTube e disponibilizando em seu blog longa entrevista que deu ao jornal santista A Tribuna.

Claro que nas respostas à entrevista e no calor da hora da gravação vêm à tona detalhes do livro, outras opiniões de seu autor, enfim, aquele making off que tanto delicia fãs (como eu) de filmes em DVD. É aí, nestes bastidores e no day after, que Gurgel aponta, de forma explícita e direta, um tópico que, no seu livro, é reafirmado ao longo dos vinte ensaios que o compõem: a pluralidade dos domínios do conhecimento necessários ao discurso que fala de literatura.

Filosofia, História, Sociologia, Retórica... muitos são os sotaques que podem entrecruzar-se na fala do crítico e vários deles, efetivamente, comparecem à fundamentação da crítica de Gurgel. E alguns outros ele expulsa definitivamente, como os pobres linguistas estruturalistas, por si mesmos afastados do palco (!) mas imediatamente substituídos por outros fundamentalismos.

Vem da filosofia – do espanhol Ortega y Gasset – um dos pressupostos do pensamento de Gurgel. A ideia de que eu sou eu + minha circunstância inspira a amplificação que o crítico faz de uma obra para além das palavras que seu autor escreve, e permite a ele (crítico) discutir a obra entendendo-a como amplificadora da experiência humana.

Foi aí que Gurgel me pegou.

E a circunstância do leitor? E a circunstância do momento de cada uma de suas leituras? Não seriam determinantes de sua compreensão da obra e de sua valorização?

Eu, por exemplo, gosto de Inocência, livro que Gurgel considera um romancinho sentimental, onde o diminutivo desqualifica. Lembro de ter lido o livro com onze para doze anos. Lição de escola, de Dona Maria Luíza. Mas... havia uma menina na minha classe chamada Inocência, chata como a peste.  Petulante e convencida. Fui ler o livro com a maior má vontade inspirada na homônima da heroína. Mas o livro me emocionou: me comoveu a subalternidade da menina ao pai autoritário, a confiança dela no padrinho, a delicadeza da homenagem representada por dar o nome dela a uma borboleta...

Vinguei-me de minha colega apelidando-a de papilosa e acho que foi aí que me tornei leitora de romances e aprendi a lidar com leituras alheias, matéria-prima de professores de literatura.

Ou seja: como lidar com as infinitas circunstâncias em que leitores leem o que leem? Este livro de Gurgel sugere várias destas maneiras. Ele nunca se esquece, por exemplo, de que está falando em público de suas leituras privadas. Franqueia, pois ao leitor sua circunstância de leitura, atribuindo a seus leitores reações que bem podem ter sido as suas: se você, leitor, teve vontade de rir, não se sinta constrangido (115). Ou justificando suas decisões discursivas: ideia sobre a qual nem me darei ao trabalho de comentar, tamanho o seu despropósito (143).

Ou ainda, mencionando outros críticos e pensadores com os quais concorda ou dos quais diverge. Ou transcrevendo os textos dos romances nos quais se apoiam suas observações, ou tirando da estante prosadores que têm passado em branco na história canônica da literatura brasileira. Desta lista de prosadores brasileiros do B que Muita retórica – Pouca literatura apresenta, destaco a agradável surpresa que representa a leitura que Gurgel faz de João Francisco Lisboa e de Joaquim Felício dos Santos.

Ou seja: todas aquelas folhas em revoada na primeira capa do livro voltam obedientes à escrivaninha do crítico e compõem um livro extremamente corajoso e provocador.
 
Vamos a ele!

outubro 10, 2012

Texto integral da entrevista que concedi ao “A Tribuna”, de Santos


A entrevista que concedi ao jornal A Tribuna, de Santos, publicada no último sábado (imagem acima) saiu, por problemas de espaço, com alguns cortes. A seguir, publico a íntegra do bate-papo que tive, por e-mail, com o jornalista César Miranda:

A Tribuna: Entre os autores analisados em seu livro encontram-se nomes clássicos (José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompeia, Machado de Assis, Graça Aranha etc.). Além destes ficcionistas, há também prosadores como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Eduardo Prado, Nabuco e Taunay. Por que a escolha dos escritores acima? Qual foi o critério? Tem alguma admiração por eles?
Rodrigo Gurgel: O livro é uma compilação da série de ensaios que iniciei, em 2010, no jornal Rascunho, de Curitiba. Sou crítico literário do jornal desde 2006, mas em 2010 iniciei essa série, cujo objetivo é reler os principais prosadores da literatura brasileira, sejam ficcionistas ou não. A escolha desses autores nasce, portanto, não de uma admiração pessoal, mas da necessidade de empreender esse trabalho de releitura da prosa nacional. Trabalho, aliás, que continua e chegará aos prosadores contemporâneos. Nesse primeiro volume, agora publicado, tratamos dos prosadores do século XIX.

A Tribuna: Por que considera Canaã, de Graça Aranha, “o mais pedante romance brasileiro”?
Rodrigo Gurgel: Canaã é um romance artificial, construído com o objetivo de defender algumas teses caras ao seu autor. É apenas um mosaico de estilos diferentes, montado sobre um plano esquemático, carregado de psicologismo hiperbólico e rasteiro. Vejam-se os diálogos do romance: os personagens não conversam realmente, com naturalidade, mas as falas são apenas justapostas, de maneira que cada personagem represente um sistema filosófico ou determinados valores. É uma sucessão monótona de discursos, na qual, aliás, o povo brasileiro é ridicularizado do começo ao fim. Há algumas cenas famosas, que se tornaram antológicas, como a do parto de Maria, quando o recém-nascido é devorado pelos porcos, mas elas somente reforçam o esquematismo do romance. Como disse Otto Maria Carpeaux, “Canaã só convence leitores inexperientes”. Por todos esses motivos, o romance é de um pedantismo ímpar.

A Tribuna: Qual sua opinião sobre a crítica literária atual?
Rodrigo Gurgel: A crítica literária atual, no Brasil, pode ser dividida em dois grandes grupos. De um lado, temos críticos que seguem as escolas estruturalistas e pós-estruturalistas. Eles pretendem submeter a literatura a certas análises predominantemente lingüísticas, como se apenas a lingüística pudesse dar conta das inúmeras características que compõem uma obra literária. Esses críticos usam, quase sempre, um jargão cansativo, hermético, que afasta o leitor e, na verdade, acaba não explicando nada. Thomas Pavel, um dos críticos dessas escolas, diz, com acerto, que elas apenas criaram um “verniz onírico”, mais nada. De outro lado, temos críticos que, seguindo ou não o estruturalismo e o pós-estruturalismo, negam-se a realmente criticar. Eles sofrem do que eu chamo de síndrome do crítico envergonhado. É uma espécie de bom-mocismo, um tipo de hipocrisia. Esses críticos dizem que é impossível julgar, que ninguém pode dizer se uma obra literária é boa ou não, se uma obra literária deve ser lida ou não. Na verdade, o que eles querem é ser amigos de todo mundo, passar a mão na cabeça dos escritores e tratar todos da mesma forma, inclusive os que são medíocres. É claro que há críticos que fogem a esses dois grupos, mas formam a minoria das minorias.

A Tribuna: Quais críticos literários o senhor admira?
Rodrigo Gurgel: Otto Maria Carpeaux, um austríaco que se naturalizou brasileiro e nos deixou muito mais que uma obra voltada à crítica literária, mas o trabalho de um verdadeiro humanista, é, sem exageros, genial. Outros críticos que sempre releio, pelos quais tenho grande admiração, são Samuel Johnson, Charles Moeller, Northrop Frye, Edmund Wilson, Lionel Trilling, Joseph Pearce e Marcel Reich-Ranicki. Entre os brasileiros, gosto de Álvaro Lins, Augusto Meyer, Lúcia Miguel-Pereira, Temístocles Linhares, Wilson Martins e, mais recentes, Alexandre Eulalio, João Alexandre Barbosa, Marisa Lajolo, Alcir Pécora e Moacir Amâncio. No que se refere aos brasileiros, citá-los não significa que concorde sempre com eles, mas são grandes inteligências, que vêem a literatura não apenas sob o aspecto formalista, mas como um diálogo com a experiência humana.

A Tribuna: No bate-papo com leitores, o senhor vai falar também sobre a obra do escritor Olavo de Carvalho. Inclusive, o senhor fez o texto da orelha do livro A filosofia e seu inverso. Qual importância desse livro do Olavo de Carvalho?
Rodrigo Gurgel: Olavo de Carvalho tem importância fundamental na cultura brasileira. Seu livro O imbecil coletivo é um marco dos estudos culturais no Brasil e será relido por todas as gerações futuras. Sem ele, será impossível ao estudioso entender como a hegemonia marxista transformou o Brasil no paraíso da mediocridade. Olavo também elaborou um original, seriíssimo trabalho de análise do pensamento de Aristóteles, no seu Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Além disso, ele é um polemista magistral, uma das raríssimas vozes que tiveram a coragem de, nas últimas décadas, se antepor à nefasta hegemonia cultural da esquerda. Neste seu último livro, A filosofia e seu inverso, que reúne alguns de seus artigos e ensaios produzidos nos últimos anos, ele recusa, mais uma vez, o doutrinamento pós-moderno, ou seja, recusa-se a aceitar o tripé corruptor dos tempos atuais, um tripé formado por relativismo, hedonismo e ateísmo.

A Tribuna: Quando nasceu sua paixão pelas letras? Existe algum fato marcante?
Rodrigo Gurgel: Creio que nasceu do amor pelos livros, algo que, na minha família, sempre foi natural. Nós convivíamos com os livros como se fizessem parte da família. Lembro-me que meu pai me colocava sentado sobre o tampo da sua escrivaninha, abria no meu colo um dos volumes do Tesouro da Juventude e lia histórias para mim. É minha primeira lembrança em relação aos livros. Meu pai tinha uma vasta biblioteca, formada principalmente de livros jurídicos, e meus irmãos, minha mãe e eu tínhamos de, uma vez por ano, limpar todos os volumes, tarefa que demorava vários dias... Era uma festa, um trabalho feito com união, amor, alegria. Portanto, ler, para mim, sempre foi algo tão natural quanto respirar. Lembro-me, por exemplo, de minha avó paterna, que me deu para ler As mil e uma noites. E também da discussão que meu pai provocou, quando descobriu que ela me dera Madame Bovary para ler. Eu só tinha doze anos. Depois da discussão, que presenciei, minha reação foi a mais esperada: ler Flaubert com atenção ainda maior. 

A Tribuna: Quais são os livros que o acompanham em suas viagens? Que tipos de enredos prefere?
Rodrigo Gurgel: Ler apenas por prazer tornou-se algo muito raro na minha vida, infelizmente. Estou sempre lendo por motivos profissionais. Mas se tivesse de escolher alguns livros para ler despreocupadamente, apenas por prazer, eu ficaria com os escritores que mais amo: Flannery O’Connor, George Bernanos, Henry James, Joseph Conrad, Tolstói e Dostoyevski.

A Tribuna: O que o senhor leu recentemente que acha que vale a pena ler?
Rodrigo Gurgel: O ensaio de Ricardo Souza de Carvalho, A Espanha de João Cabral e Murilo Mendes; e Rumor dos cortejos, uma coletânea de poesia cristã francesa do século XX, organizada e traduzida por Pablo Simpson. 

A Tribuna: Gostaria de acrescentar algo mais?
Rodrigo Gurgel: Olavo de Carvalho diz, com acerto, que “a crítica literária é a primeira disciplina filosófica, porque a crítica é a expressão intelectual mais imediata da própria experiência literária”. E a experiência literária, por sua vez, nada mais é que uma abertura à variedade da experiência humana. Ler literatura, portanto, é alargar a imaginação, ampliar nossa visão sobre as possibilidades da existência, inclusive sobre as possibilidades éticas ou morais da existência. Se entendemos a literatura assim, então a função do crítico é mostrar essas possibilidades, tomar o leitor pela mão e mostrar a ele um dos inúmeros caminhos possíveis. Para fazer isso, ele precisa recusar a arrogância epistêmica e o monismo de julgamento que imperam hoje. Ele deve ler a obra literária perguntando também até que ponto ela realmente responde ao que pretendeu ser, se ela realmente consegue ser uma estrutura coerente. É o que busco fazer no meu trabalho e neste livro, Muita retórica – Pouca literatura.

outubro 09, 2012

Bilhete aos críticos envergonhados

“Um público que tenta dispensar a crítica e, afirma, sabe o que quer ou de que gosta, brutaliza as artes e perde a memória cultural.” – Northrop Frye

outubro 06, 2012

Hoje, lançamento de “Muita retórica – Pouca literatura” em Santos

Às 16h, estarei na Livraria Realejo, no Gonzaga, para autografar meu livro e bater um bom papo sobre literatura, crítica literária e os novos lançamentos do filósofo Olavo de Carvalho. Até lá, amigos!

outubro 05, 2012

“A obra literária se completa quando nós completamos a sua leitura”, diz Ortega y Gasset


Acima, o vídeo de minha palestra sobre o livro que acabo de lançar: Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha). Olavo de Carvalho diz, com acerto, que “a crítica literária é a primeira disciplina filosófica, porque a crítica é a expressão intelectual mais imediata da própria experiência literária”. E a experiência literária, por sua vez, nada mais é que uma abertura à variedade da experiência humana. Ler literatura, portanto, é alargar a imaginação, ampliar nossa visão sobre as possibilidades da existência, inclusive sobre as possibilidades éticas ou morais da existência. Se entendemos a literatura assim, então a função do crítico é mostrar essas possibilidades, tomar o leitor pela mão e mostrar a ele um dos inúmeros caminhos possíveis. Para fazer isso, ele precisa recusar a arrogância epistêmica e o monismo de julgamento que imperam hoje. Ele deve ler a obra literária perguntando também até que ponto ela realmente responde ao que pretendeu ser, se ela realmente consegue ser uma estrutura coerente.

outubro 04, 2012

A salvação pelo duplo – “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha

Ao ler o romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, é preciso separar o joio do trigo. É o que faço em meu ensaio deste mês, no jornal Rascunho.

setembro 28, 2012

Palestra virtual sobre meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura”

Na próxima 2ª feira, dia 1º de outubro, às 20 h, darei uma palestra on-line sobre meu livro, Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha). Na data e horário marcados, para acompanhar a palestra basta ir ao site da Vide Editorial e clicar no banner amarelo ou, se preferirem, ir direto à página de transmissão.
 
Aviso, inclusive, que o livro encontra-se à venda na Livraria Cultura, na Martins Fontes e na própria editora.

setembro 24, 2012

setembro 20, 2012

Machado de Assis e a Gnose

No prefácio que escreveu para meu livro, Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha), o professor e romancista José Carlos Zamboni mostra-se leitor perspicaz, que não apenas detecta minha linha de estudo, as preocupações que tenho em relação à análise da prosa brasileira, mas vai além, interpretando algumas de minhas conclusões à luz de um achado particular: o da Gnose como “uma das fontes remotas do pessimismo” de Machado de Assis. Tema que, com certeza, pede aprofundados estudos.
 
Abaixo, coloco os trechos finais de “Um crítico contra a corrente”, brilhante prefácio de José Carlos Zamboni:


setembro 12, 2012

Um livro contra a corrente

Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha) reúne vinte ensaios publicados, entre 2010 e 2012, no jornal Rascunho, numa série, ainda não terminada, em que me proponho a reler os prosadores da literatura brasileira.

Minha leitura segue, de maneira proposital, parâmetros em grande parte desprezados na atualidade, quando a crítica literária não só difunde, mas também sofre dos três males apontados por Tzvetan Todorov: formalismo, niilismo e solipsismo. Trata-se, portanto, de uma leitura à contracorrente.

Dispus os ensaios cronologicamente, como convém a um trabalho que, embora crítico e analítico, também se apresenta sob a perspectiva da história. E cada autor eleito comparece com uma obra, escolhida por seu caráter paradigmático, sua capacidade de representar o conjunto da produção do escritor.

Entre os autores analisados encontram-se os nomes clássicos de José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompeia, Machado de Assis, Graça Aranha etc. Mas não me ative, apenas, aos ficcionistas; e também reli grandes prosadores esquecidos – como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Eduardo Prado – ou ainda hoje lembrados (por exemplo, Nabuco e Taunay).

Como afirma José Carlos Zamboni no prefácio Um crítico contra a corrente, “Rodrigo Gurgel não teme o julgamento, que deve completar obrigatoriamente a análise. Não salva nem condena em bloco, preferindo exercitar a difícil arte de fazer justiça; e, por isso, todos esses autores [...], mesmo os que mais sofrem com suas bordoadas, acabam resguardados num aspecto ou noutro”.
 
A partir de hoje, Muita retórica – Pouca literatura pode ser adquirido no site da Vide Editorial (que publicou o livro) ou na Livraria Cultura.


setembro 11, 2012

Em breve, nas livrarias, “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)”

Quando um livro nasce e olhamos para o primeiro exemplar retirado da caixa, um desfile de pessoas queridas passa diante de nossos olhos. Podemos ser o autor, nossas ideias estão presas entre as duas capas, mas por trás de nós pulsam aqueles sem os quais a obra não existiria: minha mãe, Carmen, que sempre quis ter um filho médico, mas aceitou com um sorriso minha opção pela literatura; meu pai, infelizmente falecido, que nas manhãs de domingo me fazia ler o editorial do Estadão e, debatendo comigo, exercitava meu raciocínio; inesquecíveis professores, principalmente Ivanira Dadalt, que no primeiro ano de colégio não discordou de mim quando lhe disse que O Guarani era intragável; Bia Kotek (sem seu carinho e sua amizade, eu simplesmente não estaria vivo hoje); Mimi, minha esposa, que ouviu, com abnegada paciência, muitos dos ensaios – e sempre me entusiasmou quando pensei em desistir; Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, que encampou o projeto, ainda em curso, de releitura da prosa brasileira e sempre, sempre respeita minhas ideias; Cesar Kyn d’Ávila, Adelice Godoy, Silvio Grimaldo e Lucas Silveira Santos, que, num gesto de rara amizade, convidaram-me para publicar a obra pela Vide Editorial (Silvio Grimaldo, aliás, foi o longânime editor); Diogo Chiuso, responsável pelo projeto editorial sóbrio, que teve abnegação monacal com meu detalhismo; Robson Vilalba, que captou perfeitamente minha ideia para a ilustração da capa; José Carlos Zamboni, autor de um prefácio magnífico, cuja inteligência me fez perceber novas questões a serem abordadas; e Ronald Robson, que estraçalhou os inevitáveis erros e escreveu uma orelha generosa, fraternal. A todos vocês, muito, muito obrigado.

setembro 04, 2012

Coelho Neto: perseguido, mas brilhante

Em meu ensaio deste mês no jornal Rascunho, analiso o romance Turbilhão, de Coelho Neto, obra-prima desse autor injustamente perseguido e massacrado por grande parte da crítica literária nacional. A respeito do estilo de Coelho Neto, podemos, sem exagero, lembrar o que Milan Kundera fala, no ensaio “Improviso em homenagem a Stravinski” (em Os testamentos traídos), referindo-se à escolha de Johann Sebastian Bach pela polifonia pura, o que Kundera chama de “recusa tácita do futuro”:

a História não é necessariamente um caminho ascendente (em direção ao mais rico, ao mais culto), [...] as exigências da arte podem estar em contradição com as exigências do dia (dessa ou daquela modernidade) e [...] o novo (o único, o inimitável, o que nunca foi dito) pode ser encontrado numa direção diferente daquela traçada por aquilo que todo mundo sente como progresso. Com efeito, Bach pôde ler na arte dos seus contemporâneos e dos mais jovens do que ele um futuro que deveria parecer, a seus olhos, uma queda.

agosto 11, 2012

A única paixão sem grandeza


“Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.” – Nelson Rodrigues

agosto 08, 2012

David Stove, consciência moral e honestidade

É incrível como gerações de intelectuais – ou semi-intelectuais – podem repetir, de maneira incansável, um sofisma que apenas prejudica a humanidade. E é ainda mais incrível como essa ilusão de verdade pode ser desmontada por meio de um raciocínio aparentemente simples. Digo aparentemente, pois a lógica de David Stove esconde duas questões fundamentais, esquecidas pela intelligentsia nacional – e sem elas seria impossível construir tal reflexão: consciência moral e honestidade. O artigo fala por si. E não citarei nem mesmo uma linha, pois ele precisa ser lido na íntegra. [Atenção: ainda que alguns navegadores digam o contrário, o Mídia Sem Máscara não apresenta perigo de malware.] Apenas complemento com uma dica: ler, depois, a introdução de Isaiah Berlin à obra A liberdade, de John Stuart Mill (presente na edição publicada pela Editora Martins Fontes). Berlin apresenta a contrapartida ideal às ideias de Stove, ao asseverar, apesar de alguns elogios, que “a defesa que faz Mill de sua posição no tratado sobre a Liberdade não tem, como frequentemente se diz, uma qualidade intelectual superior. Muitos de seus argumentos podem ser dirigidos contra ele; certamente nenhum é conclusivo, ou poderia convencer um oponente determinado ou impassível”.

julho 30, 2012

Números ruins numa pesquisa do faz de conta


O lead da matéria sobre a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil chama para o que é menos importante. Trata-se de curiosa aula de antijornalismo. A questão dramática, o fato realmente central, começa a aparecer só no quarto parágrafo, quando ficamos sabendo que “apenas 50% dos brasileiros podem ser considerados leitores”.

Quando li o trecho, pensei: “Melhoramos muito!”. De fato, 50% até poderia ser um número alvissareiro... Mas logo me deparei com a triste verdade: a metodologia escolhida pelos pesquisadores é uma ferramenta de criar ficção, pois define como “leitor” pessoas que “leram pelo menos um livro nos três meses precedentes ao questionário da pesquisa”.

Ora, quem leu “pelo menos um livro” três meses antes de responder ao tal questionário não é e nunca foi leitor. Esse pobre infeliz pode receber qualquer outro nome, mas o fato de ter aberto um livro – à força ou por acaso – não passa de um acidente.  

Contudo, estamos no Brasil – e aqui, mesmo partindo de critérios duvidosos, uma pesquisa sobre leitura revela números desalentadores. Saliento dois:

1) No último quatriênio, o número de livros lidos por ano (por pessoa) caiu de 4,7 para 4;

2) 75% da população não frequenta bibliotecas.

Fico pensando como seriam os resultados se a pesquisa tivesse trabalhado com critérios que de fato buscassem a verdade... É um exercício que, desgraçadamente, não exige muita imaginação.

julho 28, 2012

Rémi Brague e os “rasgos monstruosos do laicismo”

O filósofo Rémi Brague, um dos ganhadores do Prêmio Ratzinger deste ano, fala, na entrevista abaixo, em espanhol, sobre a “tentação permanente que há no laicismo, a de se transformar numa religião secular e reivindicar uma outra forma de sagrado – sagrado que terá, então, rasgos monstruosos”. E completa: “Pensemos, por exemplo, nas religiões seculares do século XX; o nazismo, por exemplo, para o qual o sagrado não era Deus, mas a raça”. Brague também coloca os pingos nos is no que se refere à herança muçulmana para o Ocidente, citando, com ironia, o “mítico Al-Andalus” e a falsa tolerância religiosa ali existente. Além de criticar o “suicídio cultural da Europa” nos dias de hoje, Brague responde a Edward W. Said, refutando sua tese sobre a questão do chamado “orientalismo”. No fecho da entrevista, magnífico, o filósofo mostra como as raízes da democracia ocidental podem ser encontradas não na Grécia, mas, sim, na Idade Média.

julho 25, 2012

Infinito


Desta janela, emoldurada por lombadas coloridas, meu olhar não alcança a nitidez do horizonte, linha líquida onde as cores se assemelham e sublima-se o relevo.

Não sei se amanhece. Mas pouco importa. Volto-me para o salão imenso – e a luz revela, além de fios brancos, migalhas de caspa sobre meus ombros.

Meus passos ecoam sobre o piso de mosaico e reverberam lá no alto, contra abóbadas e arcos paralelos. Só há livros. Livros e escadas de ferro que conduzem de um mezanino a outro. Livros. E mesas. E cadeiras onde se empilham livros – in-fólios, miniaturas, encadernações de mestres esquecidos.

Não sinto calor ou frio. De um salão a outro, em linha reta, a arquitetura se repete, janelas altas, luz refletindo sobre as lombadas, escadas ligando um patamar a outro, uma sequência de estantes a outra.

Janela após janela, brilham as lombadas desiguais. Salão após salão, as abóbadas aprisionam o olhar.

Um mordomo sonâmbulo introduziu-me aqui e pediu que eu aguardasse. Agora, até mesmo a direção da entrada é uma dúvida. Olho para trás e vejo o corredor que se afunila, cortado por centenas de fachos de luz. Viro-me, e a mesma imagem se desenha, transformando a arquitetura na dimensão da impossibilidade.

Onde estão meus anfitriões? Por que o mordomo não traz um chá, uma palavra? Aguardo o toque de uma sineta, de uma campainha – ou da porta que, ao abrir-se, fará ranger as dobradiças.

Retiro os livros de uma poltrona e sento-me. Abro ao acaso o volume que mais se encontra à mão. A luz imutável acorda as páginas amarelecidas, cujo folhear desprende perfume e som apaziguador.

Página após página, cresce a certeza de que o mordomo não voltará. Ninguém poderá encerrar esta visita. Nenhum som, nenhuma brisa.


Flocos de caspa caem, lentamente, enquanto o olhar percorre as linhas. Minhas costas arqueiam. A biblioteca espera.