janeiro 07, 2015

A disciplina é a liberdade do escritor

Sem constância, não há escritor
Qual o lugar perfeito para escrever?

É o local que conseguimos criar dentro das nossas possibilidades, nas circunstâncias em que vivemos.

Se escrever é realmente essencial, as dificuldades não importam: você conseguirá criar seu espaço.

Nos últimos 12 anos, mudei três vezes de residência. Na primeira, a janela do quarto dava para duas paisagens paulistanas: a rua movimentada, que os ônibus subiam forçando os motores, e a quadra de uma escola. Eu escrevia obedecendo aos horários de entrada, recreio e saída das crianças. Quando chegava o final de semana, pronto a comemorar o relativo silêncio, descobria que a escola cedera a quadra para um show de rock.

Mas há situações diferentes: conheço escritores que lêem e escrevem num apartamento minúsculo, com 3 filhos brincando à sua volta.

Você pode e deve buscar o lugar ideal — mas a necessidade de escrever, tão premente em certos casos, sempre se adapta à realidade.

Além disso, se ficamos esperando pelo espaço ideal, jamais escreveremos.

A urgência de escrever cria os locais — a urgência de escrever força situações. Um banco de jardim, um café no qual possamos ficar esquecidos em alguma mesinha, o balcão da padaria, uma biblioteca pública — qualquer lugar serve, desde que você possa se concentrar.

Meu sonho é escrever diante de uma janela aberta sobre o horizonte amplo, montanhoso, e ouvir, ao fundo, o murmurar de um riacho. Mas passei dois anos escrevendo no quarto de um apartamento em que, ao abrir a janela, se estendesse o braço, tocaria o prédio vizinho.

Na verdade, abstrair-se, concentrar-se, requer expediente. Isto é, decisões rápidas (e muitas vezes simples) para se livrar das dificuldades. E persistência.

Quando a empregada do apartamento grudado ao meu ligava o rádio no último volume, eu colocava fones de ouvido e escutava Brahms. Depois de alguns minutos, não ouvia nada: nem as musiquinhas suburbanas nem o meu clássico. Escutava apenas minhas próprias idéias, ouvia as frases que se formavam e a voz que dialogava comigo sobre qual verbo, qual substantivo expressaria melhor o que eu tinha a dizer.

Todos os escritores repetem essa experiência: há minutos de aquecimento, em que as idéias parecem emperradas, em que tudo incomoda — depois, mergulha-se numa espécie de alheamento. Não é um transe, não perdemos contato com a realidade, mas nosso mundo interior nos domina, ganha força, se sobrepõe às coisas que nos limitam.

Escrevemos, então, numa espécie de umbral localizado entre nossas construções mentais, o espaço em que estamos e a consciência de nosso corpo.

Reviver essa experiência dia após dia exige disciplina — um ritual que precisa ser construído, descoberto.

Em que horário sua produção flui com facilidade? Tenho amigos notívagos, outros preferem o amanhecer, alguns precisam de solidão, outros gostam da presença quieta de alguém, dos movimentos cotidianos e simples de uma casa.

Alguns necessitam que a mesa esteja limpa — ou que os objetos a seu redor fiquem perfeitamente organizados. Um amigo só escreve depois de repetir determinados gestos.

É preciso descobrir esse sistema pessoal de trabalho — e repeti-lo. Mas a descoberta só ocorre se o escritor estiver atento a si mesmo.

A palavra disciplina pode parecer pesada, mas uso-a no sentido de comportamento metódico. Sem constância, não há escritor.

A disciplina liberta a mente para o que mais importa: escrever. O escritor se prepara, repete seu ritual, sente-se dono do seu minúsculo espaço, comanda aquele período de horas em que dialogará consigo mesmo. E cria.

Depois de algum tempo, conhecemos o caminho da luz solar sobre a escrivaninha — e como ele muda à medida que os meses passam. Esse conhecimento nos conforta, nos liberta para o desgastante e prazeroso exercício de escrever.

Quando o dia termina, quando o tempo dedicado ao ritual se encerra, as páginas estão cheias — e não de rabiscos sem sentido.

A disciplina é a liberdade do escritor.

Um comentário:

milicus brazucas disse...

Olá Rodrigo,

É ótimo receber preciosos conselhos daqueles que têm profundo amor pela literatura.

Vou aproveitar o espaço para lançar algumas dúvidas;espero que não se importe.

Gostaria de saber se tais títulos que aqui apresentarei,são importantes para uma boa introdução à linguística, e aperfeiçoamento da escrita literária.

''Flor do Lácio'' - de Cleófano Lopes de Oliveira

''Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa'' - Gladstone Chaves de Melo

''A Formação do Estilo pela assimilação dos autores", - de Antonio Albalat

As obras de Massaud Moisés:

A Criação Literária e Dicionário de Termos Literários, são boas referências?

Gostaria de uma opinião sua em particular; e se possível,indicações que,no seu entender,sejam mais importantes e de valor imprescindível.

Um forte abraço!

Mateus Henrique